Repensar e Reestruturar
(por Mafalda Nobre e Joana Sobral)
Voltando à ideia de que "O Stop é fechado sobre si mesmo", e reflectida esta questão no contexto actual, depois dos últimos acontecimentos e divergências no "bairro" e com a câmara, pensamos que o Stop acaba por ser fechado sobre si mesmo ou visto como tal, precisamente em termos de comunidade.
O que acontece, parece-nos, é que não é visto do lado de fora como algo "normal", ou parte do quotidiano de uma cidade, como órgão importante que produz música, cultura. A visão que muitas pessoas acabam por ter do espaço e do que se faz lá dentro é a de alguma coisa clandestina e fora do normal que se passa num espaço por si só já residente na fronteira entre o passado e o futuro.
Esta interpretação é sintomática de uma visão algo discriminatória, mas pode dever-se um pouco à ideia que habitualmente temos de espaços como o Stop, um centro comercial meio ocupado, meio desocupado. Alguns espaços do género, como o Centro Comercial de Cedofeita, ou o Centro Comercial do Campo Alegre sofrem do mesmo mal, por estarem algo cheios e algo vazios, e por se situarem em zonas da cidade muito específicas, vistas de maneira diferente pelos seus residentes e pelos seus visitantes.
Tendo ainda em conta os últimos acontecimentos, muitos pensam que se produz “ruído” no Stop. Pensamos que, de certo modo, a difusão de música identificada como produzida no Stop ajudaria a desmistificar estas interpretações. Apesar de muitas das bandas não se identificarem com a ideia de “Comunidade”, e por isso não se integrarem nas acções promovidas, seria importante insistir na sua integração. Acreditamos que, de certa maneira, a etiquetagem da música como produzida dentro do Stop (e o Stop identificado como uma comunidade de músicos) ajudaria a desmistificar e clarificar muita coisa.
O facto, no entanto, desta difusão viver da Internet ajuda a manter a intenção de não mostrar tudo o que está por dentro da montra, e a manter a analogia entre o espaço e o que lá se faz. É importante por um lado mostrar o Stop e, por outro, não o mostrar demasiado. Este é o tipo de lugar que não se parece prestar a uma divulgação tradicional. Assim, utilizar a Internet como plataforma privilegiada de divulgação faz todo o sentido. A Internet é o espaço democrático e livre por excelência.
“For McNair the fact that anyone, or at least anyone with access to the right technologies, can blog means the end of what he describes as the ‘control paradigm’, in which the media help sustain the social order through the dissemination of dominant ideas and values and at the same time serve the interest of those in control.”[1]
Se a realidade Stop é tão radicalmente diferente das realidades que habitualmente associamos à indústria da música (o Stop é facilmente tido como um espaço underground), então o lugar da sua existência real enquanto comunidade – mais até do que o espaço físico – poderá ser a metáfora de uma sociedade anárquica e utópica que é a Web, e particularmente a Web 2.0.
Para além disto, sabemos que o binómio música / Internet é um tanto delicado. Falamos não tanto de questões como o sampling mas essencialmente da tecnologia peer-to-peer. Se é impossível evitar a circulação gratuita de música pela Internet, não seria desejável incorporar já nesta filosofia “Stop na Net” a aceitação e convivência com esta realidade? Se já não se vendem discos e as receitas dos músicos começam a ser geradas mais através dos concertos, porque não permitir aos utilizadores do PostStop não apenas ouvir música on-line como também fazer download?
“Let’s build a world that we’re actually going to be proud of. Not just a profitable world for a few very large media companies.”[2]
Propõe-se concretamente uma rádio do Stop on line, um pouco à semelhança da Last-fm, com uma listagem das músicas, organizadas segundo tags e com a possibilidade de as bandas, uma vez “loggadas” no site, fazerem upload de músicas directamente para a rádio. Propõe-se igualmente a possibilidade de o utilizador seleccionar a música que está a ouvir e aceder aí a informação extra bem como ao link para fazer o download.
Misturar as músicas, não as fazer corresponder a álbuns ou a salas responderia não apenas à necessidade de dar a conhecer a música e as bandas como parte do Stop como também à necessidade de manter um certo anonimato do espaço.
A própria imagem da Last-fm (e de outras redes sociais) poderia ser apropriada e transportada para o PostStop, quase como um meio de legitimação forçada ou de falsa institucionalização do Stop.
Uma vantagem clara em relação à difusão na Internet versus difusão na rádio tem a ver com a disponibilidade diária de emissões: os ouvintes não ficam de maneira nenhuma dependentes de um horário de programação.
Por outro lado, sabemos que a Internet é um poderoso meio de difusão além fronteiras. O que está na Internet está acessível a todos, se a difusão for feita apostando nisso. A audiência de uma plataforma on line é muito superior, neste momento ao de uma audiência de rádio. As rádios já não são escutadas como antigamente, são mais escutadas nos auto-rádios ou através da Internet.
Será proveitoso para os músicos do Stop essa grande difusão? Depende dos objectivos de cada banda. É possível dispensar informação e conteúdos na Internet camuflados e acessíveis apenas a grupos restritos de pessoas, existe essa escolha. O que seria neste caso importante apurar é a necessidade de difusão musical por parte das bandas. Se já dispensam a sua música em sites como o Myspace Music provavelmente não se importariam de ceder essa música a PostStop. Mas a questão não se centra apenas na possibilidade de difundir ou não difundir na Internet.
Todas estas questões de comunidade Stop podem também ser vistas de outra forma, porque se podem criar, como já se sugeriu acima, duas comunidades: uma física, dos que habitam o espaço e apostam na união para a resolução de problemas e se identificam como membros do grande grupo de músicos que lá vivem; e uma outra comunidade, esta virtual. Este tipo de comunidade on line já existe em muitos formatos um pouco por todo o mundo, e são comuns blogs pessoais de interessados em estilos musicais que publicam música, comentam e a divulgam ao mundo através de ficheiros mp3 alojados em posts.
A comunidade virtual que pensamos que nasceria do facto de se dispensar música on line através do Post Stop seria assim formada pelas bandas que dispensariam a sua música na Internet, mas fundamentalmente pelo público/auditório que iria frequentar o PostStop para ouvir a música que ele teria para oferecer. Porque as comunidades são feitas de diálogo e interacção, e porque a comunidade Stop gira à volta de música e músicos, o espaço na web seria mais um veículo de fortalecimento.
A comunidade Stop cresceria numa dimensão global, seria músicos, música, auditório, comentadores, fãs, colaboradores do PostStop, etc.
A grande questão tem a ver precisamente com a etiquetagem made in stop.
Neste momento e dada a confusão gerada entre habitantes Stop, bairro e câmara Municipal, acreditamos que as bandas têm todas as vantagens em afirmarem-se como parte do Stop. Resta-lhes avaliar individualmente as vantagens (e eventuais desvantagens) de uma difusão musical etiquetada made in stop, que tem de ser pensada caso a caso, medindo prós e contras.
Em termos gerais pensamos que esta etiquetagem e difusão fariam com que se percebesse que o interesse maior daquele espaço (físico e virtual), é música, só música.
[1] GERE, Charlie, Digital Culture. 2ª edição, Reaktion Books, London, 2008. p. 211.
[2] KAHLE, Brewster. In Steal This Film II, 2007., [acesso em 2010, Janeiro 29], disponível em http://www.stealthisfilm.com/Part2/download.php.
Bibliografia
GERE, Charlie, Digital Culture. 2ª edição, Reaktion Books, London, 2008.
SHAVIRO, Steven, Connected, or it means to live in a network society, Minnesota University Press, 2003
LESSIG, Lawrance, Free culture- how big media uses technology and the law to lock down culture, Penguin Press, New York, 2004
First Monday, Peer Reviewed Journal on the Internet, Bayn, Nancy K., The new shape of online community. The example of Swedish independent music fandom., [acesso em 2010, Janeiro 26], disponível em www.firstmonday.com.
Steal This Film II, 2007., [acesso em 2010, Janeiro 29], disponível em http://www.stealthisfilm.com/Part2/download.php.
sábado, 30 de janeiro de 2010
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