A PRODUÇÃO CULTURAL NO CONTEXTO DOS NOVOS MEDIA SOCIAIS
E A SUA RELAÇÃO COM QUESTÕES DE AUTORIA E DOMÍNIO PÚBLICO
“There is a growing desire for intellectually stimulating material
that is easily accessible.”[1]
A Internet, enquanto manifestação de uma cultura digital em constante desenvolvimento, tem sido progressivamente um meio difusor de informação, respondendo não só às necessidades naturais do ser humano de comunicar, mas também de obter conhecimento e expressão cultural, produzindo e reagindo.
As tecnologias de informação estão cada vez mais acessíveis, em alternativa aos livros, que podem estar a viver neste momento uma ameaça de extinção, existe um disponibilizar cada vez maior e variado de conteúdos informativos e de entretenimento através de ferramentas físicas de leitura digital, como o Kindle[2] da Amazon, ou o novo iPad, da Apple.
A abrangência cada vez maior e facilitada da Internet abriu cada vez mais possibilidades individuais de cada um nós contribuir com um papel activo naquilo que outrora seria apenas objecto de consumo. O acesso à cultura nas suas diversas configurações é cada vez mais um dar e receber, reciclar e voltar a dar.
A liberalização da informação vive não só do facultar de conteúdos, mas cada vez mais da colaboração de todos para a produção dos mesmos. Somos pró-activos, contribuidores, e ocupamos agora uma posição comum, de aprendizes, consumidores, emissor e receptor, professor e aluno.
Esta capacidade de ser ao mesmo tempo audiência e produtor de conteúdos informativos e de entretenimento, e de assim podermos ceder e simultaneamente consumir conhecimento tem vindo a ser adaptada e aplicada a plataformas de conteúdos académicos, escolares e informativos.
A procura é grande e a oferta cada vez maior. Há uma rápida resposta às necessidades, e aos serviços que procuramos, as ferramentas adaptam-se a nós e nós adaptamo-nos às ferramentas, mudamos e somos mudados.
São vídeos, ficheiros de som, artigos, ensaios académicos, plataformas educacionais ligadas às universidades e aos museus, motores de pesquisa exclusivamente dedicados a conteúdo académico, conferências online e tutoriais de todo o género.
“The web is now causing educators, from preschool to graduate school, to rethink the very nature of teaching, learning and schooling.”[3]
A democratização do ensino superior começou a desenvolver-se nos anos 90 quando as universidades começaram a ver na Web uma oportunidade de expandir fontes de conhecimento. Em 1999 a Universidade de Tübingen, Alemanha, tornou-se na primeira instituição de ensino superior a disponibilizar online artigos e textos relacionados com matérias e aulas leccionadas. Em 2002 o Massachusetts Institute of Technology (MIT) lançou a sua página Open Course Ware (OCW)[4].
A OCW disponibiliza gratuitamente conteúdos relacionados com os cursos e matérias de estudo do MIT. A página do MIT recebe mais de 1.2 milhões de visitantes por ano. Estima-se que quase 45% dos visitantes da página sejam estudantes autodidactas, que procuram aceder a conteúdos científicos e de aprendizagem.[5]
A Wikipédia, criada em 2001, é uma das mais importantes plataformas de alojamento de informação e conhecimento. Disponibiliza mais de três milhões de artigos escritos, editados e reeditados por utilizadores e editores registados, em mais de 260 línguas. As contribuições são gratuitas e obedecem ao rigor e bom senso dos contribuidores, existindo um corpo de supervisores que vão confirmando a veracidade e rigor científico das contribuições. A enciclopédia online, desenvolvida e actualizada por cada um de nós, promove a livre utilização e reedição dos seus conteúdos, desde que estes sejam novamente postos à disposição de todos e licenciados da mesma maneira: livre cópia, reutilização distribuição.
Distribui informação sobre os mais variados temas, e desenvolve projectos irmãos, através da Wikimedia Foudation, com vista a facultar outros tipos de informação catalogada. O Wikiquote, que fornece citações e axiomas, ou o Wikiversity, uma plataforma em desenvolvimento constante de ferramentas de aprendizagem nos vários níveis e disciplinas de ensino, são exemplos disso.
A Academic Earth[6], uma organização americana sem fins lucrativos que visa proporcionar a todos os utilizadores da web conhecimento académico gratuito, fornece gratuitamente na sua página conteúdos académicos e aulas integrais de diversas universidades em forma de vídeo ou texto. Os utilizadores são convidados a disporem dos conteúdos e a colaborarem comentando, sugerindo e propondo novos modos de tornar o ensino mais abrangente e acessível. Os conteúdos podem ser descarregados, mas o seu uso está protegido como propriedade da Academic Earth.
O ciclo de conferências TED, (Technology, Entertainment, Design), propriedade, desde 2001, da The Sampling Foundation, fundação sem fins lucrativos criada em 1996 com o objectivo de espalhar ideias e divulgá-las para que sejam inspiradoras, nasceu em 1984, pela mão de Richard Saul Wurman.
Entre 2001 e 2006 o ciclo foi disponibilizando as suas conferências e open talks em vídeo e audio podcasts, fomentando a partilha de ideias online, e criando a mais popular plataforma de divulgação de conhecimento, ideias e conteúdos de alguns dos grandes pensadores, lideres e professores do mundo.
Estas duas plataformas têm várias coisas em comum, como a possibilidade de download dos conteúdos.
As duas promovem a colaboração na discussão de ideias e comentários nos ficheiros disponibilizados, embora o TED fomente uma divulgação dos seus conteúdos mais entusiasmada.
“You are encouraged to view as many talks as you wish for free, and to share what you learn with others both online and offline.”[7]
Em ambas as páginas são recomendados cuidados no tratamento e divulgação de conteúdos, mas no caso do Academic Earth estes conteúdos podem ser dispensados por quem esteja interessado em divulgar, tendo em conta condições de copyright impostas pela plataforma.
“If you are a professor, educator, or representative from an academic institution and would like to use our platform to distribute content to learners worldwide, we would be excited to hear from you[8].”
Também no domínio dos conteúdos educacionais em vídeo acabou por entrar, 2009, o Youtube. Adquirido pelo Google em 2006, um ano após o seu lançamento online, é hoje uma ferramenta indispensável na pesquisa, visualização e divulgação de todo o tipo de conteúdos em vídeos colocados no site pelos próprios utilizadores.
“Short-form, streaming video is growing rapidly on a variety of digital platforms and being interwoven into the fabric of daily life, politics, and commerce (…) Online video is a lively site of emergent
popular culture”[9]
A partir do mesmo princípio de que o vídeo se torna cada vez mais um veículo eficaz de difusão online, e uma vez que o Youtube é a plataforma procurada em primeiro lugar para visualizações e produção de conteúdos em vídeo, a aposta na disponibilização de conteúdo académico chegou em Março de 2009.
O YoutubeEdu disponibiliza conteúdos de mais de 100 universidades, de professores e pensadores de todo o mundo. Sendo uma plataforma ainda em desenvolvimento, muitos utilizadores preferem o Academic Earth por que o Youtube não permite (legalmente) o download. Os conteúdos têm de ser vistos com uma conexão de internet activa. Os perfis que adicionam os vídeos são propriedade das próprias faculdades que os adicionam, e logo também neste ponto o Academic Earth acaba por ser mais organizado, uma vez que tem um corpo activo de responsáveis pela organização dos conteúdos.
Os utilizadores das duas plataformas, que comentaram algumas das diferenças entre as duas, reclamam no entanto que o YoutubeEdu, à semelhança da plataforma mãe, fomenta mais a ideia de comunidade e interacção entre os utilizadores
e os conteúdos[10].
Em termos de copyright a lei é idêntica à do Youtube, usos controlados e difusões com o leitor original, sem fins lucrativos.
O iTunes da Apple, desenvolveu também uma plataforma que dispensa conteúdos académicos em formato áudio e vídeo. O download é gratuito, e os conteúdos são cedidos por protocolos entre instituições de ensino, museus e serviços de televisão sem fins lucrativos (estações PBS- Public Broadcasting Service).
Existem ainda modalidades de acesso a conteúdos educacionais através de pagamento online. O The Teaching Company publicita e vende on line aulas, cursos e conferências em dvd’s, cd’s e outros formatos.
A OER (Open Educational Commons) lançada em Fevereiro de 2007 funciona como uma rede que organiza todas estas fontes de cedência de material académico. Agrupa materiais e organiza as fontes com licenças Creative Commons e GNU.
O que este tipo de ferramentas trás de novo além de uma abrangência global que a Internet ajuda a fomentar, é a possibilidade de se ter acesso a conteúdos educacionais sem sermos alunos de nenhuma instituição.
As plataformas deste género estão de certo modo a criar uma nova forma de entretenimento de massas, baseado no adquirir de conhecimento.
“Imagine what a treasure trove this for a college teacher in Africa or a student in a developing country in Asia who can Access good materials from prestigious universities at their fingertips.[11]”
Podemos considerar que vivemos um momento de transformação e evolução das ideias primárias de educação e acesso a informação. Parte dos desafios da educação prendem-se com o facultar de informação de formas cada vez mais abrangentes.
Como Gutenberg revolucionou a pouco e pouco o acesso das massas à leitura, este tipo de plataforma e de comunidades online cada vez mais emergente estão a fomentar o acesso mais simples ao conhecimento.
Acontece que este tipo de novas tecnologias e maneiras de tratar e expandir a informação levantam questões relacionadas com direitos autorais e de divulgação e utilização livre dos conteúdos. Nem todas as plataformas promovem o uso livre dos conteúdos que disponibilizam.
“The Internet makes possible the efficient spread of content (…)
This efficiency does not respect the traditional lines of copyright.”[12]
Basicamente o que não é permitido baseia-se na utilização dos conteúdos para fins lucrativos. O que cada um faz com os conteúdos que descarrega no campo do conhecimento resume-se a assimilação de ideias e a uma possível reciclagem da informação. As licenças Creative Commons pressupõem isso mesmo.
É óbvio que quando aprendemos alguma coisa a vamos mais tarde ou mais cedo usá-la noutro contexto, reformulando-a e adaptando-a. É um processo de reciclagem, que fomenta a utilização do conhecimento para produção de mais conhecimento, licenciado do mesmo modo. Neste momento o que entra em confronto com esta ideia de divulgação e uso livre é o conceito
de propriedade intelectual.
Em termos de fornecimento de conhecimento científico o que está em jogo é o trabalho que cada um teve para alcançar as conclusões que apresenta.
Ninguém faz uma investigação sem a ajuda de outros, e as fontes secundárias parte importante de um processo de investigação. Isso significa que, à parte de invenções únicas que resultam do pensamento e da investigação de alguém serem na maior parte das vezes catalogadas como propriedade intelectual ou industrial de alguém, estas resultaram a combinação de vários elementos que chegaram aos criadores porque uma legião de outros os divulgaram.
“Creative work has value; whenever I use, or take, or build upon the creative work of others, I am taking from them something of value. Whenever I take something of value from someone else, I should have their permission. The taking of something of value from someone else without permission is wrong. It is a form of piracy.”[13]
Existem no entanto diferenças no uso que damos às informações de carácter académico. O que aprendemos pode ser usado das mais diversas formas, e desde que não se faça uma divulgação dos conteúdos exactamente como nos chegaram à mãos, penso que não existem razões para que em todas as plataformas seja possível fazer o download dos conteúdos. Recorde-se que o YoutubeEdu não oferece esta possibilidade (embora existam programas que o fazem, sem a autorização
da plataforma).
Penso que embora seja necessário identificar o autor e a universidade ou instituição que divulgam os objectos académicos, se deve fomentar o seu uso livre, desde que esse uso se cinja a uma reciclagem desses conteúdos.
O que está em causa é que este tipo de plataformas apenas existe porque vive de uma cultura convergente. São plataformas participativas, e do mesmo modo que necessitam da colaboração de instituições, professores, pensadores e dos próprios utilizadores, que formam as comunidades que alimentam cada uma destas fontes de informação. Se vive de todos nós, não faz sentido que apenas alguns consigam obtê-las. Neste sentido o que está a acontecer é que se caminha não só para uma sociedade de convergência, colaboração e acesso livre, mas para um território de conhecimento e acesso a informação sem elitismos, selecções e condições sociais.
Claro que não falamos de um acesso a informação apenas por divertimento, mas de uma possibilidade em ascensão de todos podermos fazer parte de uma grande comunidade que produz conhecimento, usa-o e volta a produzi-lo, livremente.
A página do MIT recebe mais de 1.2 milhões de visitantes por mês, os conteúdos da universidade de Oxford no iTunes ultrapassou um milhão de uploads e sempre 10 podcasts no top 100, e a aula de história da filosofia de Marianne Talbot também de Oxford tornou-se rapidamente num hit do iTunesU.
Estamos a perder o medo de partilhar conhecimento, e a torná-lo cada vez mais acessível às massas.
Bibliografia
Lessig, Lawrance, Free Culture: how big media uses technology and the law to lock down culture, Penguin Press, New York, 2004
Saviro, Steven, Connected, or what it means to love in a network society, Minnesota University Press, 2003
Gere, Charlie, Digital Culture, Reaktion Books, London, 2002
Recut, Reframe, Recycle, Center for Social Media, School of Communication American University, Janeiro 2008
Lyons, Daniel, Jeff Bezos interview, Newsweek, 28 de Dezembro de 2009/ 4 de Janeiro de 2010.
Brownell, Gianne, iPod University, Newsweek, 9 de Dezembro de 2009
Webografia
Kindle, Amazon.com, [acesso em Janeiro 2010], disponível em www.amazon.com/kindle.
Ronald D. Owston, in The World Wide Web: A Technology to Enhance Teaching and Learning?, 1997, [acesso em Janeiro 2010], disponível em JSTOR : Educational Researcher, Vol.26, Nº 2, http://www.jstor.org/pss/1176036
Free Online Courses Material | MIT OpenCourseWare, [acesso em Janeiro 2010], disponível em http://ocw.mit.edu.
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Open Culture [acesso em Janeiro 2010], disponível em www.openculture.com
YoutubeEDU [acesso em Janeiro 2010], disponível em www.youtube.com/edu
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Gates, Bill, What I’m Learning, Great Lectures from The Teaching Company, [acesso em Janeiro 2010], disponível em http://www.thegatesnotes.com/Learning/article.aspx?ID=24
The Teaching Company [acesso em Janeiro 2010], disponível em
http://www.teach12.com
OER Commons, [acesso em Janeiro 2010], disponível em http://www.oercommons.com
ISKE, Institute for the study of knowledge Management and Education [acesso em Janeiro 2010], disponível em http://www.iskme.org/
Demos, [acesso em Janeiro 2010], disponível em http://www.demos.co.uk/
Apple- Education, iTunesU, [acesso em Janeiro 2010], disponível em
[1] Peter Bradweel, in iPod University, Newsweek, 9 de Novembro 2009
[2] Kindle, Amazon.com, [acesso em Janeiro, 2010], disponível em www.amazon.com/kindle. Kindle é um software e hardware desenvolvido pela Amazon.com que interpreta, lê e mostra conteúdos literários,
e-books e áudio-books.
[3] Ronald D. Owston, in The World Wide Web: A Technology to Enhance Teaching and Learning?, 1997
[4] Free Online Courses Material | MIT OpenCourseWare, [acesso em Janeiro, 2010], disponível em http://ocw.mit.edu.
[5] In iPod University, Ginanne Brownell, Newsweek, 9 de Novembro de 2009.
[6] Academic Earth | Online Courses | Academic vídeo lectures [acesso em Janeiro, 2010], disponível em www.academicearth.org
[7] TED | Terms of Use, ponto 2, [acesso em Janeiro de 2010], disponível em www.ted.com/termsofuse
[8] Partners | Academic Earth, [acesso em Janeiro de 2010],disponível em
www academicearth.org/about/partners.
[9] In Recut, Reframe, Recycle, Center for Social Media, School of Communication American University, Janeiro 2008
[10] Comentários ao post Introducing YoutubeEDU!, Open Culture, [acesso em Janeiro de 2009], disponível em www. www.openculture.com/2009/03/introducing_youtube_edu.html
[11] Francesc Pedro in iPod University, Gianne Brownwell, Newsweek, 9 de Novembro de 2009
[12] In Free Culture: how big media uses technology and the law to lock down culture”, Lawrance Lessig,
Penguin Press, 2004
[13] In Free Culture: how big media uses technology and the law to lock down culture”, Lawrance Lessig,
Penguin Press, 2004

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