sábado, 5 de dezembro de 2009

Esquema Stop

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Supostamente organizado
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Identidades visuais para uma unidade heterogénea

(Mafalda Nobre e Joana Sobral)


Enquadramento

O Stop é um centro comercial abandonado e re-aproveitado para outros fins. No fundo, é mais um caso dos muitos casos de edifícios públicos que mudam de programa de x em x tempo, respondendo às necessidades das pessoas. Muito provavelmente, aquilo foi-se transformando numa gigante sala de ensaios de bandas porque a notícia de que haviam ali salas para alugar foi-se espalhando de boca em boca entre conhecidos... No entanto, não há dúvida de que, independentemente da forma como esta realidade se foi configurando, ela tem um quê de misteriosa. Muito factores devem contribuir para isso: a questão arquitectónica é claramente um deles. Os vidros não são já montras, mas o seu perfeito contrário: funcionam agora para esconder e não para mostrar. E aqueles que ainda revelam alguma coisa, ou revelam ruínas ou revelam objectos estranhos como patos feitos com conchas... A forma parece ser a antítese da função.

Se não faz sentido manter o STOP fechado sobre si mesmo (até porque o que ali se faz é música e, portanto, pede público) também não faz sentido expô-lo descaradamente (as revelações completas trazem sempre consigo uma perda de encantamento). É importante por um lado mostrar o Stop e, por outro, não o mostrar demasiado. Este é o tipo de lugar que não se parece prestar a uma divulgação tradicional. Assim, utilizar a internet como plataforma priveligiada de divulgação do STOP faz todo o sentido. A internet é o espaço democrático por excelência, na internet podemos mentir ou dizer só meias-verdades.

Numa plataforma web funcionamos como no Stop, fazendo parte de uma grande rede homogénea por um lado, mas repartida por milhões de páginas singulares. Estamos na Net mas estamos na nossa página. Estamos no Stop mas estamos na nossa sala.

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Objectivos

Pretende-se aproveitar o Post Sounds para divulgar sons e acentuar uma identidade colectiva do que se produz na comunidade.

A ideia seria disponibilizar a música que se faz no STOP (para ouvir on-line ou eventualmente permitir downloads), mas identificando-a como pertencente àquele universo muito específico. Porque as bandas que ensaiam no STOP estão presentes na internet mas de uma forma muito dispersa, cada qual com o seu MySpace. Colocar as músicas, umas ao lado das outras, no PostSTOP e poder ouvi-las (ordenada ou desordenadamente) é uma forma muito real de as identificar como nascidas ali. Acreditamos que aquele lugar é tão rico e tão próprio que, eventualmente, seria do interesse dos músicos que ali ensaiam deixar-se representar também como “stopianos” (à parte das suas representações mais tradicionais no MySpace, por exemplo).

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Conteúdos

Uma rádio do STOP on-line, um pouco à semelhança da Last-fm, com uma listagem das músicas, organizadas segundo tags e com a possibilidade de as bandas, uma vez “loggadas” no site, fazerem upload de músicas directamente para a rádio.

Misturar as músicas, não as fazer corresponder a albúns ou a salas responderia às duas necessidades acima descritas: a necessidade de dar a conhecer a música e as bandas como parte do STOP e a necessidade de manter um certo anonimato do espaço.

Para cada banda seria desenvolvida uma imagem que, ao mesmo tempo, salvaguardasse a individualidade da banda e a sua pertença ou presença no STOP. Isto poderia ser feito através da repetição de um mesmo elemento (mais ou menos camuflado) nas diferentes imagens das bandas.

A própria imagem da Last-fm (e de outras redes sociais) poderia ser apropriada e transportada para o PostSTOP, quase como um meio de legitimação forçada ou de falsa institucionalização do STOP.

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Concretização

Seria necessário, numa primeira fase, entrar em contacto com as bandas, por forma a averiguar se estariam interessadas em contribuir para o projecto, isto é, a fazer-se representar nesta rádio on-line. Depois, sensibilizar as bandas para uma utilização efectiva e activa da plataforma através de uma contribuição mais ou menos regular de uploads de novas músicas. Seria igualmente vital conversar com as bandas e ouvir as suas músicas para tentar encontrar e desenvolver um sistema ou uma estratégia de representação visual de cada banda e de todas. Um trabalho de campo simultaneamente exploratório e de propostas visuais.

Finalmente, ter-se-ia de entrar em contacto com as pessoas responsáveis pelo "Post Stop".

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Comentário

Sérgio Cameira

Este parece-me um projecto importante pois contribui para a formação e consolidação da comunidade (stopianos), ao mesmo tempo que a divulga (e à sua música). Existe uma grande relação entre este projecto e o nosso, pelo facto de ambos incidirem na afirmação da comunidade Stop, ainda que através de estratégias diferentes.

"Se não faz sentido manter o STOP fechado sobre si mesmo (até porque o que ali se faz é música e, portanto, pede público) ..."
Ali faz-se música, e concordo que a música pede público, mas dizer que o stop está fechado sobre si mesmo parece que a música que ali é produzida não é passada ao exterior, o que penso não ser verdade. Apenas é mostrada independentemente por cada banda (e pelos meios que dispõem), e é nesse ponto que eu acho que o vosso projecto funciona muito bem, pois tenta acrescentar um poder simbólico à denominação "stopiano", que faz parte da "comunidade Stop" ao mesmo tempo que a divulga como um conjunto.

Apesar da pertinência dos objectivos, o projecto corre o risco de estar condenado à partida, pois depende inteiramente da colaboração dos habitantes do Stop, que, como sabemos, têm dificuldades em assumir compromissos que não tenham benefícios imediatos, e que necessitem de algum trabalho da sua parte.

E se, com o objectivo de lhes proporcionar esse benefício imediato, tentarem arranjar um acordo com uma rádio do porto (festival, rádio nova,etc) para criar um programa de rádio semanal (por exemplo) que fosse anunciado como sendo assumidamente do STOP, e que passasse músicas apenas das bandas do Stop. Poderiam então, fazer uma ligação entre esse programa de rádio e o rádio do Stop online, como sendo dois pontos de visibilidade da "comunidade Stop".
Porquê?
Porque o rádio tem (supostamente) uma visibilidade maior, enquanto que a internet é um meio onde é necessário "encontrar" a informação , e para além disso eles já têm o seu myspace, mas muito provavelmente não têm tempo de antena na rádio.

Não sei se esta ideia poderia resolver o vosso "problema" (que até pode não existir), e se calhar acrescentar algo ao vosso projecto pois pode ser uma maneira de divulgar a plataforma online, e o próprio PostStop.

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Repensar e Reestruturar

Voltando à ideia de que " O STOP é fechado sobre si mesmo", e reflectida esta questão no contexto actual, depois dos últimos acontecimentos e divergências no "bairro" e com a câmara, penso que o Stop acaba por ser fechado sobre si mesmo ou visto como tal, precisamente em termos de comunidade.

O que acontece, a meu ver, é que não é visto do lado de fora como algo "normal", ou parte do quotidiano de uma cidade, como órgão importante que produz música, cultura. A visão que muitas pessoas acabam por ter do espaço e do que se faz lá dentro é a de alguma coisa clandestina e fora do normal que se passa num espaço por si só já residente na fronteira entre o passado e o futuro.

Esta interpretação é sintomática de uma visão algo discriminatória, mas pode dever-se um pouco à visão que se dá a um espaço como o do Stop, um centro comercial meio ocupado, meio desocupado. Alguns espaços do género, como o Centro Comercial de Cedofeita, ou o Centro Comercial do Campo Alegre sofrem do mesmo mal, por estarem algo cheios e algo vazios, e por se situarem em zonas da cidade muito específicas, vistas de maneira diferente pelos seus residentes e pelos seus visitantes.

Tendo ainda em conta os últimos acontecimentos, muitos pensam que se produz "ruído" no Stop. Penso que, de certo modo, a difusão de música identificada como produzida no Stop, ajudaria a desmistificar estas interpretações. Apesar de muitas das bandas não se identificarem com a ideia de Comunidade, e por isso não se integrarem nas acções promovidas, seria importante insistir na sua integração. Acredito que de certa maneira, a etiquetagem da música produzida, como produzida dentro do Stop, e o Stop identificado como uma comunidade de músicos ajudaria a desmistificar e clarificar muita coisa.

O facto, no entanto, desta difusão viver da Internet ajuda a manter toda a ideia inicial de não mostrar tudo o que está por dentro da montra, e manter a analogia entre o espaço e o que lá se faz. Uma vantagem clara em relação á difusão na Internet versus difusão na rádio tem a ver também com a disponibilidade diária de emissões: o auditório não fica de maneira nenhuma dependente de um horário de programação.

Por outro lado, sabemos que a Internet é um poderoso meio de difusão além fronteiras. O que está na Internet está acessível a todos, se a difusão for feita apostando nisso. A audiência de uma plataforma on line é muito superior, neste momento ao de uma audiência de rádio. As rádios já não são escutadas como antigamente, são mais escutadas nos auto-rádios ou através da Internet.

Será proveitoso para os músicos do Stop essa grande difusão? Depende dos objectivos de cada banda. É possível dispensar informação e conteúdos na Internet camuflados e acessíveis apenas a grupos restritos de pessoas, existe essa escolha. O que seria neste caso importante apurar é a necessidade de difusão musical por parte das bandas. Se já dispensam a sua música em sites como o Myspace Music provavelmente não se importariam de ceder essa música a PostStop. Mas a questão não se centra apenas na possibilidade de difundir ou não difundir na Internet.

Todas estas questão de comunidade Stop pode também ser vista de outra forma, porque se podem criar, no fundo, duas comunidades, uma física, dos que habitam o espaço e apostam na união para a resolução de problemas e se identificam como membros de um grande grupo de músicos que lá vivem, e uma outra comunidade esta virtual. Este tipo de comunidade on line já existe em muitos formatos um pouco por todo o mundo, e são comuns blogs pessoais de interessados em estilos musicais que publicam música, comentam e a divulgam ao mundo através de ficheiros mp3 alojados em posts.

A comunidade virtual que penso que nasceria do facto de se dispensar música on line através do Post Stop seria assim formada pelas bandas que dispensariam a sua música na Internet, mas fundamentalmente pelo público/auditório que iria frequentar o Post Stop para ouvir a música que ele teria para oferecer. Porque as comunidades são feitas de diálogo e interacção, e a comunidade Stop gira à volta de música e músicos, o espaço na web seria mais um veículo de fortalecimento.

A comunidade Stop cresceria numa dimensão global, seria músicos, música, auditório, comentadores, fãs, colaboradores do PostStop, etc.

A grande questão tem a ver precisamente com a etiquetagem made in stop.

Neste momento e dada a confusão gerada entre habitantes Stop, bairro e câmara Municipal, as bandas têm todas as vantagens em afirmarem-se como parte do Stop. Resta-lhes uma avaliação pessoal e fechada dentro de cada banda e avaliar vantagens de uma difusão musical etiquetada made in stop, que tem de ser pensada caso a caso, medindo prós e contras.

Em termos gerais pensamos que esta etiquetagem e difusão fariam com que se percebesse que o interesse maior daquele espaço (físico e virtual), é música, só música.

Bibliografia

Shaviro, Steven, Connected, or it means to live in a network society, Minnesota University Press, 2003

Lessig, Lawrance, Free culture- how big media uses technology and the law to lock down culture, Penguin Press, New York, 2004

First Monday, Peer Reviewed Journal on the Internet, Bayn, Nancy K., The new shape of online community. The example of Swedish independent music fandom., [acesso em 2010, Janeiro 26], disponível em www.firstmonday.com.